minha humildade vai a meu mito antigo, à primeira luta entre humanos em que se produziu a ideia de que vencer sempre piora o caráter ::
nesse vale de sentidos de difícil habitação, sou o pai e o pão, embebido em sangue e panos sujos, navegáveis em sua poesia arcaica, e de chão, capoeira angola::
meu biógrafo terá algum trabalho, especialmente para dizer quem sou :: indassim, se dividir meus investimentos profissionais em duas metades, terá acertado ::
primeiro, o tempo do literato, melhor quando lia, melhorado na quentura de um permissivo prazer
:: em seguida, o negro abolicionista, lutando para libertar-se da carga pesada, fardo que não alivia sobre o corpo, forte e fraco corpo que, apesar de todo dia renascer, todo dia se acaba ::
logo, nessa segunda metade de meu terno tormento profissional, tornei-me o escritor derrotado que se fecundou, que se abaixou tanto, por necessidade e humilhação, que tocou no livrinho branco da terra, e melhorou de caráter ::
não sou mais um cantor feliz e algo explorador (de escravos ou de mulheres), fase da primeira metade
agora sou mais gente, e meu ferimento aberto é que toca esse ritual melhorador, essa ritualidade de evolução ::
eu tô fodido, mas bem pago, pois o livro é bento, abençoado, esse que me escreve, esse em que me escrevo ::
em outubro de 25
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