sou incompreendido porque muitas pessoas
têm preguiça:: não gostam do que faço
e represento, não gostam do meu
jeito, porque sonham com um mundo simples, que dê menos trabalho
em termos de interpretação, paciência
e leitura :: eu, e várias outras pessoas como eu, que não priorizam
dinheiro, nem gritar com os filhos,
nem exercer os inúmeros preconceitos que nossa sociedade se habituou
a exercer, nos últimos anos, a partir
de uma leitura simplificada sobre como deve ser a vida em sociedade ::
estou rico em delícias e cordura para
oferecer porque sou pensante sobre o país original das compras como alegoria,
sem pretensões de mercado, ou
consumistas :: sou a ária mais distante da natureza, entendendo a doença
como cura :: sem medo :: por isso pouquíssimas
pessoas me entendem :: e faço disso
o mote para que todos se sintam como
eu, únicos e inimitáveis, bem menos cínicos ::
:: faço que tudo seja como criança
pequena
ou ascendendo à condição de grão ou poeira de sal, pequenas partículas que se
acumulam na relva, promovendo um espanto primordial, fome densa, paz profunda
:: e, nesse
carrossel do inimaginável, como o prazer
intangível de uma brincadeira de rua, muito abrigada pelo rumor
também intangível dos ócios
coletivos, me encontro e resido, como em um colete salva-dias, único, úmido e possível
::
os passos da terra me dão tua formosa benzedura :: fruto bom :: bem acabada é a espiga :: insetos, húmus, folhas :: aves de adoração geral :: a sabedoria é interestelar, e nós somos de um terreiro artista :: o nosso ordenamento agora se completa, e os tempos da vegetação nos unem ::
os tempos da sagrada boiada e seus estouros :: estouram sementes :: um galho arrisca no outro :: um soneto para o luar do sertão :: nos completamos :: sorrisos, alongamentos :: aquífera vadiação :: salve iemanjá :: bem longas e isoladas, nossas formas se encontram :: e é tudo o que pensava aquele perdão entre corpos :: meus dedos estão mais minuciosos e teus seios estão mais perfeitos :: estamos misteriosos como as folhas ritualísticas das benzedeiras de aruanda :: e numa rua aberta por por nosso prazer, há um plano aberto pelo aninhamento que é coser e cozinhar, juntos, escolher e realizar, juntos, arar, fornecer, dormir e jejuar, juntos :: vamos reescrevendo um antigo evangelho para todos os antigos casamentos :: uma cidade tomada por fôlegos que idolatram e incendeiam :: aos teus pés, muito incenso :: te trago em meu bico de pássaro uns pedacinhos de sensação agreste :: umas pedras do deserto, para encantar o pensamento :: e assim nos enfeitamos, e assumimos as posições do sol e da lua, em intenso conflito, como nos confins dos lamentos dos deuses que nos inventam :: numa nova reunião de pessoas ou povos, nos reinventamos, porque somos artistas, e pertencemos ao vento ::
++ feliz aniversário, meu amor, vc é a mulher de meus poemas, e te amo muito ::